Trânsito à Margem do Lago
OBJETIVOS
Estreitar as relações com o coletivo Soylocoporti - parceiros do Ministério da Cultura junto ao Pontão Kuai Tema a partir de linhas de ação e reflexão sobres os temas: fronteira, memória, ativismo e américa latina. Desse contato, propomos transitar durante 30 dias pelas margens brasileiras e paraguaias do Lago Artificial de Itaipu vivenciando as rotas estabelecidas do lugar. Tomamos a atitude nômade como princípio deflagrador das relações e desencadeador de situações criativas de contato. Deslocamentos serão registrados em áudio, vídeo, fotografia, mapas, gráficos e textos, a serem publicados diariamente em website próprio vinculado ao website do Pontão Kuai Tema ao longo dos 30 dias da ação. Nossa rota será definida pelas experiências de cada lugar à partir de Foz do Iguaçu.
A proposta de trânsito está subdividida em duas áreas de análise, assim, os objetivos são apresentados em comuns e específicos:
1. Objetivos específicos - Ativismo:
a) Pesquisar as configurações de grupos ativistas locais, seus padrões de organização e engajamento político - traduzidos em estratégias e ações criativas;
b) Identificação simbólica de fronteira - estruturas de poder, identificação de limites, conflitos e transgressão de normas - trocas simbólicas, negociações, interpenetração e (pré)conceitos, a partir das dinâmica coletivas;
2. Objetivos específicos - Memória:
a) Pesquisar as manifestações mnemônicas relativas ao meio de expressão e ao conteúdo;
b) Ativar a memória sobre acontecimentos das últimas três décadas;
3. Objetivos comuns:
b) Identificar repertórios simbólicos compartilhados;
c) Estabelecer relações;
d) Identificar estratégias identitárias próprias;
e) Promover dinâmicas coletivas de rememoração, criação e crítica;
JUSTIFICATIVA DO PROJETO
A fronteira entre o oeste do Paraná/Brasil com os departamentos Alto Paraná e Canindeyú do Paraguai é marcada por significativas transformações ambientais e sócio-culturais. Especificamente a partir da década de 70, com a construção da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu, fruto da política de desenvolvimento proposta pelos governos ditatoriais militares, foi traçada uma política de controle sobre as fronteiras a partir da arbitrariedade e da ocupação. Fato que deflagrou tanto um elevado crescimento populacional decorrente do corpo de trabalhadores que lá se estabeleceu durante e após o término das obras da usina, quanto a polêmica expropriação de diversos grupos (colonos, ribeirinhos, indígenas) das margens do complexo de rios afetados. Outros fatores relevantes dignos de menção: a exploração predatória dos recursos naturais e a intensificação dos latifúndios; o estabelecimento da zona de livre comércio em Puerto Stroessner (atual Ciudad del Este) no Paraguai; a migração de etnias de várias partes do mundo; as relações de trabalho; o comércio ilegal; a corrupção; assim como a necessidade que grupos se organizassem em prol de seus direitos, por exemplo o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), MASTRO (Movimento dos Agricultores Sem Terra do Oeste do Paraná) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra). Um lugar que reune várias das questões contemporâneas relativas ao espaço/tempo, territorialidade, trânsitos, deslocamentso, memória e ativismo.
Buscamos o dado humano dessas dinâmicas, a experiência colaborativa e o alargamento da concepção de relação através daquilo que entendemos como processo artístico articulado por um eixo ético-estético, já que, o deslocamento da arte ao campo ampliado da cultura proporcionou a transformação dos problemas dos autores contemporâneos, deflagrando diferentes estratégias de atuação, crítica e contestação. Surgem artistas inclinados aos mais variados interesses sócio-culturais, com práticas de atuação em diferentes espaço/tempo que valem-se das características de cada lugar para intensificar as possibilidades de ruptura a partir das situações de enfrentamento (encontro) com o espaço humano.
O fato da pesquisa artística aqui proposta estar sempre no campo de relação entre a objetividade do ambiente (o gigantismo do lago) e a subjetividade humana (os desejos, a auto-imagem, as nostalgias) faz necessário o apoio de áreas do conhecimento que investiguem essas questões de formas diferenciadas das comuns à arte. As práticas artísticas efêmeras (como a performance) estabelecem um campo de discussão no modo como tais eventos reverberam em outros espaço/tempo, considerando os meios de registro (relatos, manuscritos, projetos, fotografias, vídeos) como escolhas relevantes no sentido de suas implicações poético/políticas, já que na contemporaneidade percebe-se dentre outras tendências a necessidade de constituição de uma memória capaz de nos reinventar a cada momento. Para Andreas Huissen a memória se tornou uma obsessão cultural de proporções monumentais no mundo globalizado, diretamente associada ao uso de meios de registro como suporte, enquanto registro da realidade e como mecanismo de controle. Assim o estudo sobre os meios de extensão da memória, tanto os dominantes (como a construção de uma usina hidrelétrica) quanto os sobreviventes (os que tiveram seu principal fator de identidade submerso pela estratégia de rememoração dominante) são dados importantes para a reflexão coletiva. Criam um elo com questões sobre as formas de organização coletivas que tecem suas próprias histórias e transgridem a norma da homogeneização e do controle. Para o psicossociólogo Jamil Zugueib Neto o papel determinante do sujeito nos movimentos sociais é sublinhado pela possibilidade de o homem construir sua história, de se ultrapassar e de influenciar a marcha na sociedade da qual faz parte. Identidade, subjetividade, compartilhamento, coletividade, estratégias de ação, formas de registro e circulação, memória, se entrecruzam e compõem um campo de exercício de trânsito marginal, do diálogo e da investigação direcionada ao estabelecimento de relações mais igualitárias, sem desconsiderar que, nas palavras de Augusto Boal, até mesmo numa democracia, sempre haverá um pequeno grupo querendo excluir um outro do poder. A abrangência das questões que podem surgir nas ações artísticas diretas nas margens do lago (instauradas no fluxo cotidiano) abarcam uma complexidade investigativa, apontam estratégias criativas próprias desses lugares, tratam do modo como as memórias surgem e entrecruzam-se delineando aspectos relevantes das construções simbólicas, tanto no que diz respeito a homogenização destas quanto sua diferenciação.
Nesse contexto consideramos que:
1. As relações, os encontros são causadores de transformações nos agentes envolvidos e no ambiente;
2. As intervenções artísticas que tem como princípio as relações e que estão inclinadas às questões de memória e códigos de poder podem ativar percepções sobre o lugar e o grupo;
3. O nomadismo como proposta de ser/estar transgride a idéia de presença estrangeira;
4. O ato criativo reverbera através das várias possibilidades extensivas, memórias/registros;
5. Cumplicidade e horizontalidade nas relações são posturas democráticas;
Devido a complexidade do quadro delineado acima e na busca de maior relevância à nossa prática artística, reconhecemos a necessidade do alargamento de nossa concepção de relações humanas por intermédio também de outras áreas do conhecimento, como a antropologia, estudos sociais, e interfaces tecnológicas. Para nós o trabalho artístico está vinculado a experiência colaborativa – própria da dinâmica dos coletivos de artistas e dos grupos de trabalho multidisciplinar – como também ao estabelecimento do diálogo, trocas e negociações. Nossa prática criativa é efêmera dá-se no encontro. Os registros, documentos das ações, são produzidos através dos mais diferentes meios, os dados derivados desta experiência, uma vez recombinados são reverberações da situação geradora, sua extensão para outros espaço/tempo.
Articulação, documentação, capacitação e integração por meio de ferramentas de comunicação são os propósitos centrais do Pontão de Cultura Kuai Tema, postura que converge com nossa forma de lidar com tecnologia, a partir de ferramentas livres e compartilhamento do conhecimento.
Dados do Lago Artificial de Itaipu
Criado com o represamento do Rio Paraná em 1982, abonou o canyon por qual fluia o naturalmente rio, com as águas se espalhando por terras brasileiras e paraguaias. É um lago bastante ramificado, sua extensão vai de Foz do Iguaçu até Guaíra, com comprimento de 170 km e uma superfície total de 1350 km2, sendo 780 km² do lado brasileiro e 570 km² do lado paraguaio. Abrange o seguintes municípios:
Brasil: Foz do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Itaipulândia, Missal, Santa Helena, Diamante D'oste, São José das Palmeiras, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado, Marechal Candido Rondon, Mercedes, Terra Roxa, Guaíra, Mundo Novo - MS.
Paraguai: Salto del Guairá, Mbaracayú, Alvar Nunez Cabeza de Vaca, Parodi, Paraguay Puajhú, Puerto Santa Teresa, Puerto Indio, San Ramón, Colonia Padre Guido Coronel, Colonia Acaray, Hernandarias, Ciudad del Este.
DESCRITIVO DO PLANEJAMENTO DE EXECUÇÃO
A transitoriedade por campos multilocalizados é fator importante que define o cunho do trabalho, prevemos um período de 30 dias em trânsito para o percurso completo do lago, considerando os diferentes grupos localizados nas margens do lago Itaipu (Margens Brasileiras e Paraguaias) .
Serão utilizados diferentes meios de coleta de dados: relatos orais, registros gráficos, audiovisuais, jornais, noticiários e publicações que vierem a ser relevantes. Recorre também a uma pesquisa em referências bibliográficas sobre a região e os grupos que lá habitam, agentes transformadores e intervenções constatadas durante o percurso.
A ação direta é o modo pelo qual propomos nos relacionar junto aos grupos formados, a partir de experimentações programadas sempre considerando a vivência do lugar e as opiniões do grupo. Para o estabelecimento dessa relação é necessário considerar que há uma negociação prévia, uma aproximação dos sujeitos e a articulação coletiva de grupos de interesse. Contamos com uma vasta prática na configuração de experiências e situações criativas, adaptando espaços e matérias para expressão humana.
Do percurso idealizado inicialmente, busca-se estabelecer contato com habitantes e transeuntes e a partir dai definir rotas.
Cronograma
PLANEJAMENTO DE EXECUÇÃO :
1ª etapa – Relação com o Pontão Kuai Tema - Janeiro/2010*
2ª etapa – Trânsito. - Fevereiro/2010*
3ª etapa – Retorno ao Pontão Kuai Tema - Março/2010*
* Ou até 3 meses após o recebimento dos recursos para execução do projeto.
PLANO DE TRABALHO:
1ª etapa – Relação com o Pontão Kuai Tema
Apresentação da proposta;
Oficina (processo artístico);
Elaboração de material gráfico (jornal trilingue, tiragem 800 exemplares);
Implementação de estrutura no Pontão para diálogos durante o trânsito à fronteira.
2ª etapa – Trânsito
Trabalho de campo: Trânsito pelas comunidades do entorno do Lago Artificial de Itaipu; Alimentação diária de dados coletados em website próprio do projeto.
3ª etapa – Retorno ao Pontão Kuai Tema
Análise de registros;
Seleção de material;
Edição de vídeo e áudio;
Produção de material gráfico (jornal trilingue, tiragem 800 exemplares);
Debate com os artistas proponentes, convidados artistas/pesquisadores em América Latina e um membro do Pontão Kuai Tema.
DESCRITIVO DA INTERAÇÃO E INTEGRAÇÃO COM O PONTO DE CULTURA
Entendemos que a principal característica dessa proposta de residência artística é a ampliação das possibilidades de integração a partir de uma vivência, uma pesquisa in loco, fundamentada no encontro com pessoas que habitam um lugar física e simbolicamente estabelecido como limite para integração entre dois países. Como o Pontão Kuai Tema tem na integração pela liberdade seu lema acreditamos que nossa experiência ampliada para o cotidiano do Pontão possa ser fator intensificador das relações com a região em questão, assim como desencadeador de novas estratégias relacionais.
Propomos três momentos de integração com o Pontão de Cultura Kuai Tema:
=1° momento:=
1) Apresentação da proposta ao Pontão Kuai Tema;
2) Oficina (processo artístico em "Trânsito à margem do lago");
3) Produção de jornal trilingue (português, espanhol e guarani) a ser distribuído na região do Lago a partir das questões do ponto de cultura e dos artistas proponentes (tiragem 800 exemplares);
4) Implementação de estrutura no ponto de cultura para diálogo durante o trânsito à margem do lago.
=2° momento:=
1) Trânsito à fronteira Brasil/Paraguai, desenvolvimento de percursos entorno do lago artificial de Itaipú;
2) Diário de viagem em comunicação com o ponto de cultura.
=3° momento:=
1) Encontro/debate sobre questões de fronteira e relações de integração latino americana, com participação dos artistas proponentes, 3 artistas pesquisadores convidados e um representante do Pontão Kuai Tema.
2) Distribuição de jornal trinlingue produzido a partir de conteúdo gerado durante a estada a margem do lago.
PRODUTO FINAL PREVISTO
Nossa produção é caracterizada pela efemeridade da Ação Direta, entendemos isso como um propósito final, a partir dele temos materias de registro e reverberação dessas situações, são elas:
1) Construção de website e publicação de registros;
2) Produção de jornal (duas tiragens de 800 exemplares cada);
3) Encontro/debate.
Bibliografia
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GUATTARI, F. As três ecologias. Campinas. SP : Papirus, 1990.
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HERMANNS, U. O Diretor brasileiro Augusto Boal na Bienal de Berlim. In: REVISTA HUMBOLDT. Presença da Morte. Republic of Germany: Goethe-Institut , n. 98. 2009, p. 86.
HUISSEN, A. Seduzidos pela memória, Rio de Janeiro : Aeroplano, 2000.
KWON, M. O lugar errado. Urbânia 3. São Paulo : Editora Pressa, v. n. 3, p. 147-158, 2008.
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ZUGUEIB NETO, J. Prefácio. IN: Identidades e Crises Sociais na Contemporaneidade. Jamil Zugueib Neto (Org). Curitiba: Ed. UFPR. 2005. p. 7-19.
Websites:
http://kuaitema.soylocoporti.org.br/
http://transitos.org/margemdolago
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