Prefacio Futuros Imaginarios Richard Barbrook - Português
O email chegou dos tradutores no Brasil: “Nós queremos que você escreva uma introdução para a versão em português do Futuros Imaginários – Algo em especial para nossos leitores. O que eu deveria falar? Pensei imediatamente que Suba, Marky e Patife estavam na trilha sonora nas madrugadas do período de escrita que geraram este livro. Seus ritmos contribuíram para a construção das frases e fluxos dos argumentos. Talvez eu devesse começar a introdução explicando porque estes músicos estavam nesse caldo. Seguramente não foi por acaso. Graças ao meu trabalho na Westminster University, eu tive o prazer de lecionar para alguns inteligêntes estudantes brasileiros durante a última década. Através deles e por outros contatos fiz a longa viagem ao sul três vezes para falar em conferências e festivais no Rio, São Paulo, Brasília e Pipa. Dancei em uma escola de samba, em lugares bacanas das noites e sob as estrelas numa praia. Discuti a política do Partido dos Trabalhadores, analisei o movimento de justiça global e debati longamente as teorias da esquerda noites adentro. Eu admirei a criatividade e dedicação dos artistas, hackers e ativistas brasileiros. Apesar da barreira da língua, eu agora tenho amigos neste fascinante país distante. Entusiasmado com estas visitas eu retribui o favor ajudando a organizar um evento em Londres onde Gilberto Gil apresentou as iniciativas inovadoras em novas mídias do ministério da cultura. Mas você pode perguntar, o que estas reminicências tem a ver com este livro ? Por que falar sobre elas na introdução da tradução para o português deste Futuros Imaginários ? É porque eu me lembro de estar sentado do lado de fora do telecentro comunitário em Pipa em 2004 quando me perguntaram a questão de suma importância: “Estar no Brasil mudou a maneira como você pensa a Internet ?” Meu desafio nessa introdução deve ser explicar por que a resposta é: “Sim!”
Futuros imaginários é um livro sobre o poder político e cultural das profecias tecnológicas. Durante a guerra fria, os impérios Estadunidense e Russo competiram não só para controlar o espaço mas também para deterem o tempo. Computadores e a Internet há muito tempo vêm sendo mais do que úteis ferramentas. Por mais de meio século, eles também incorporaram sonhos utópicos a serviço da ambição imperial. A nação que abre o caminho do futuro no presente pode reivindicar a liderança sobre toda a humanidade. Quando comecei a pesquisa para este livro em 2002, meu foco estava exclusivamente no Norte. Eu estava fascinado por como os futuros imaginários da guerra fria ainda dominavam o mundo contemporaneo bem depois da queda do muro de Berlin. O império americano pode ter prevalecido sobre seu rival russo, mas seus promotores permaneceram presos dentro de um marco ideológico articuladopor este conflito geopolítico. Evidentemente, este livro reflete o período no qual foi escrito: dos vestígios da bolha pontocom e do momento da invasão do Iraque pelos EUA. Por toda a Europa, lideres políticos, estudiosos especialistas e analistas da mídia estavam convencidos que os EUA – a terra da vanguarda da computação e da Internet – seria hoje, nosso amanhã. Aonde o presidente dos EUA nos guiasse, nossos países deveríam seguir – mesmo que significasse mandar tropas para terras estrangeiras onde elas não fossem bem-vindas. Como uma das duas milhões de pessoas que marcharam contra essa tolice em Londres no dia 15 de fevereiro de 2003, eu escrevi este livro como um grito de protesto. Explicando cuidadosamente a história dos futuros imaginários da inteligência artificial e da sociedade da informação, eu queria equipar os leitores com o conhecimento para recusar estas profecias anacrônicas. Da próxima vez que alguém lhes falasse que a utopia pós industrial está logo ali do lado, eles poderíam responder que esta previsão não é nada mais que um McLuhanismo reciclado. A guerra fria terminou – e os futuros imaginários made in USA, também.
Como meu entrevistador gostaria de saber, eu não precisei visitar o Brasil ou conhecer alguém do país para chegar a esta conclusão. Poucos dos autores que preenchem minhas prateleiras de estudo com pensamentos sobre computação e a Internet estão interessados no impacto das tecnologias de informação nos países em desenvolvimento. Assim como eles, eu poderia ter dito tudo que quisesse dizer neste livro sem fazer nenhuma menção à maioria da humanidade. Computadores e a Internet são do norte, então porque falar do sul ? Felizmente, meu camaradas brasileiros me preveniram de sucumbir a esta tentação comodista. Sua influência adicionou profundidade à analise dos futuros imaginários. Acima de tudo, eu percebi o quão diferente do Norte o mundo parece, visto do Sul. Não são só as constelações no céu que estão reviradas, mas também a memória geopolítica. Quando visitei Brasília em 2004, eu vi com meus próprios olhos os edifícios modernistas de uma sociedade melhor que era negada ao próprio país. Como o livro enfatiza, os principais intelectuais do Império americano eram os principais apoiadores do golpe militar de 1964 que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart. Neste paríodo os partidários do estilo estadunidense de futuro hi-tech justificavam os horrores da ditadura imposta ao Brasil. Para aqueles de nós que vivemos na Europa Ocidental é sempre um choque encontrar a desigualdade e violência que resultaram deste caminho autoritário de desenvolvimento. Pela nossa experiência da hegemonia americana durante a guerra fria ser relativamente benigna, só entendemos realmente os custos humanos das regras imperiais quando vamos para o Sul. Os capítulos finais de Futuros imaginários reflete o que eu aprendi das minhas viagens ao Brasil. Quando estava escrevendo o livro, sabia que críticas mais ferozes a estas profecias utópicas do Norte estavam explicando como seus defensores tentaram percebe-las no sul. Forçosamente, descobri que os apoiadores estadunidenses do golpe de 1964 no Brasil, foram também os arquitetos da desastrosa invasão daquela nação no Vietnã. Em relação as forças lideradas pelos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistão, o paralelo com o presente ainda está para ser desenhado. O desejo de se apropriar do tempo está intimamente conectado com a ambição de controlar o espaço. Quando olhei o mundo do Sul, pude ver quão facilmente os sonhos hi-tech podem se transformar em pesadelos de barbarismos e crueldade. Ir para São Paulo foi uma pré condição para entender porquê – em Futuros Imaginários – Saigon tem um papel tão central na história da Aldeia Global.
Quando eu visitei o Brasil em 2002, a importância de encarar o mundo desde o Sul enquanto escrevia este livro não era imediatamente óbvia. Em uma conferência na UFRJ, nossos anfitriões entretiveram os convidados internacionais com uma triste história da versão local do estilo californiano hi-tech. Fascinado pela bolha das empresas pontocom do fim da década de 90, a administração de Fernando Henrique Cardoso fantasiou sobre o Brasil dar um passo adiante, do subdesenvolvimento para a sociedade da informação sem passar pelo fordismo. Com habitantes das favelas próximas carentes das necessidades básicas e dos serviços de bem estar social que são garantidos na Europa, ficamos 'enojados' em saber como os futuros imaginários do norte deram uma lustrada modernista na perpetuação da exploração no Sul. Quando os apoiadores do recém eleito governo Lula nos contaram que chegar ao fordismo seria a maior conquista para a população urbana brasileira, não pudemos discordar. Focar a política econômica do país em computadores, Internet e telefones celulares parecia grotesco quando para tantas pessoas faltava água, saneamento básico, eletricidade, saúde e educação. Leríamos nosso Marx – Sabíamos que o Sul não poderia evitar o lento e doloroso caminho seguido pelo Norte em direção à modernização.
Então eu tive um pensamento preocupante. Ironicamente, nossas simpatias esquerdistas pelos habitantes das favelas pode esconder uma proclamação dúbia da superioridade européia. Com o enorme abismo entre ricos e pobres, a viagem ao Rio de Janeiro no começo do século 21 parece como voltar no tempo à Londres do final do século 19. É certamente verdade que muitos turistas vão ao Brasil para uma dose rápida de exotismo e aventura antes de voltar para suas seguras casas européias. Se nossas motivações para viajar pro exterior não fossem mais puras, significaria que os habitantes de um país subdesenvolvido não nos poderiam contar nada sobre computação e Internet que a gente não soubesse ? Aqui está outra conclusão problemática. Fernando Henrique foi um respeitado economista marxista antes de sacrificar princípios pelo poder. Sua aproximação perversa ao neo-liberalismo pontocom pode ter sido fundada sob um cerne de racionalidade: o Sul tem que fervorosamente imitar o norte em todas suas imperfeições. Com sua ambição de saltar por sobre o fordismo para a pós-industrialização, talvez ele fosse realmente mais radical do que o governo Lula - com seu cauteloso programa de reformas parciais? Quem quer ser sueco quando pode-se ser o vale do Silício ?
Seis anos depois, enquanto o sistema financeiro global colapsa na crise, parece absurdo que o brasil queira se transformar na Califórnia. Pelo contrário, é agora altamente reconhecido que muitos dos elementos do novo paradigma da modernidade são mais facilmente descobertos nestes países supostamente subdesenvolvidos do que na avançada vizinhança do norte. Na época em que o Mídia Tática me convidou a voltar para a conferência em 2003, Gilberto Gil já estava defendendo – como ministro de estado – uma visão open source da Internet. Para ele, financiar telecentros comunitários e pontos de cultura complementavam os suprimentos básicos dos menos privilegiados. De maneira ainda mais bela, foram os fetichistas do direito autoral do norte que tiveram que imitar a atitude tranquila do sul em relação a propriedade intelectual, não o contrário. Os que têm computadores e acesso a banda larga podem ser em menor número no Brasil do que na Europa ou EUA, mas foi ali que pode-se achar o precursor da cultura participativa da Internet. O Carnaval e não o mercado era o modelo do ministro da cultura para a emergência da sociedade da informação. Fazendo jus as suas raízes na tropicália, Gil é um verdadeiro cosmopolita. Imitação não é subserviência – é inspiração e cooperação. Remixar, samplear e citar são ferramentas do trabalho coletivo na economia da dádiva hi-tech.
Na conclusão deste livro, eu argumento que devemos inventar novos futuros. Exorcizar as ideologias da guerra fria de inteligência artificial e de aldeia global é minha contribuição para mapear o caminho através das múltiplas promessas, econômicas, sociais e ambientais que agora confrontam a humanidade. Crucialmente, como perguntou meu interlocutor de Pipa, vocês também ajudaram a criar este texto de alguma maneira. Futuros Imaginários teria sido um livro levemente diferente em várias maneiras se eu não tivesse visitado o Brasil e aprendido com as pessoas que conheci aí. Os habitantes do Norte e do Sul estão juntos nessa aventura da modernidade. Então vamos continuar nossa colaboração no esforço comum de fazer um mundo mais igualitário, sustentável e próspero. O drum'n'bass está tocando e este livro está esperando para ser lido. Aproveite !
Primeira Revisão Prefácio Futuros Imaginários Richard Barbrook
O email chegou dos tradutores no Brasil: “Nós queremos que você escreva uma introdução para a versão em português de Futuros Imaginários – algo especial para nossos leitores. O que deveria falar? Pensei imediatamente que Suba, DJ Marky e DJ Patife eram a trilha sonora nas longas sessões noturnas de escrita que geraram este livro. Seus ritmos contribuíram para a construção de frases e dos fluxos dos argumentos. Talvez eu devesse começar a introdução explicando porque estes músicos eram escutados. Definitivamente não foi por acaso. Graças ao meu trabalho na Universidades de Westminster, tive o prazer de lecionar para alguns inteligentes estudantes brasileiros durante a última década. Através deles e por outros contatos, fiz a longa viagem ao sul três vezes para falar em conferências e festivais no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Pipa. Dancei em uma escola de samba, em badaladas casas noturnas e sob as estrelas na praia. Discuti a política do Partido dos Trabalhadores, analisei o movimento de justiça global e debati longamente as teorias da esquerda noites adentro. Eu admirei a criatividade e dedicação dos artistas, hackers e ativistas brasileiros. Apesar da barreira da língua, eu agora tenho amigos neste fascinante país distante. Entusiasmado com estas visitas, retribuí o favor ajudando a organizar em 2005 um evento em Londres onde Gilberto Gil apresentou as iniciativas inovadoras em novas mídias do Ministério da Cultura. Mas, você pode perguntar, o que estas reminiscências têm a ver com este livro? Por que falar sobre elas na introdução da tradução portuguesa de Futuros Imaginários? É porque eu me lembro de estar sentado do lado de fora do telecentro comunitário na Pipa em 2004 quando me perguntaram a questão de suma importância: “Estar no Brasil mudou a maneira como você pensa a Internet?” Meu desafio nessa introdução deve ser explicar por que a resposta é: “Sim!”
Futuros imaginários é um livro sobre o poder político e cultural das profecias tecnológicas. Durante a guerra fria, os impérios Estadunidense e Russo competiram não só para controlar o espaço mas também para deterem o tempo. Computadores e a Internet há muito tempo vêm sendo ferramentas mais do que úteis . Por mais de meio século, eles também incorporaram sonhos utópicos a serviço da ambição imperial. A nação que abre o caminho do futuro no presente pode reivindicar a liderança sobre toda a humanidade. Quando comecei a pesquisa para este livro em 2002, meu foco estava exclusivamente no Norte. Eu estava fascinado por como os futuros imaginários da guerra fria ainda dominavam o mundo contemporâneo bem após a queda do muro de Berlin. O império estadunidense pode ter prevalecido sobre seu rival russo, mas seus promotores permaneceram presos dentro de um marco ideológico gerado por este conflito geopolítico. Evidentemente, este livro reflete o período no qual foi escrito: dos vestígios da bolha pontocom e do momento da invasão do Iraque pelos EUA. Por toda a Europa, lideres políticos, acadêmicos especialistas e analistas da mídia estavam convencidos que os Estados Unidos – a terra da vanguarda da computação e da Internet – seria hoje, nosso amanhã. Aonde o presidente dos EUA nos guiasse, nossos países deveríam seguir – mesmo que significasse mandar tropas para terras estrangeiras onde elas não fossem bem-vindas. Como uma das duas milhões de pessoas que marcharam contra esta tolice em Londres no dia 15 de fevereiro de 2003, eu escrevi este livro como um grito de protesto. Ao explicar penosamente a história dos futuros imaginários da inteligência artificial e da sociedade da informação, eu queria equipar seus leitores com o conhecimento para recusar estas profecias anacrônicas. Da próxima vez que alguém lhes falasse que a utopia pós-industrial estava logo ali ao lado, eles poderíam responder que esta previsão não era nada mais que um McLuhanismo reciclado. A guerra fria terminou – e os futuros imaginários made in USA, também.
Da mesma forma que meu entrevistador da Pipa pensava, não precisei visitar o Brasil ou conhecer qualquer pessoa do país para chegar à esta conclusão. Poucos dos autores que preenchem as prateleiras de meus estudos com pensamentos sobre computação e a Internet estão interessados no impacto das tecnologias de informação nos países em desenvolvimento. Assim como eles, eu poderia ter dito tudo que quisesse neste livro sem fazer nenhuma menção à maioria da humanidade. Computadores e a Internet são do Norte, então porque se preocupar com o sul? Felizmente, meus companheiros e companheiras brasileiras me preveniram de sucumbir a esta comodista tentação. Suas influências adicionaram profundidade à analise de Futuros Imaginários. Acima de tudo, eu percebi o quão diferente do Norte o mundo parece, visto do Sul. Não são só as constelações no céu que estão reviradas, mas também a memória geopolítica. Quando visitei Brasília em 2004, eu vi com meus próprios olhos os edifícios modernistas de uma sociedade melhor que era negada ao próprio país. Como o livro enfatiza, os líderes intelectuais do Império Estadunidense eram os principais apoiadores do golpe militar de 1964 que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart. As maravilhas do estilo estadunidense de futuro de alta tecnologia justificavam os horrores da ditadura imposta ao Brasil na época. Para nós que vivemos na Europa Ocidental é sempre um choque encontrar a desigualdade e violência que resultaram deste caminho autoritário do desenvolvimento. Pela nossa experiência da hegemonia estadunidense durante a Guerra Fria ter sido relativamente benigna, só entendemos realmente os custos humanos das regras imperiais quando vamos para o Sul. Os capítulos finais de Futuros Imaginários reflete o que eu aprendi das minhas viagens ao Brasil. Enquanto escrevia o livro, sabia que críticas mais ferozes a estas profecias utópicas do Norte explicavam como seus defensores tentaram imaginá-las no sul. Com muita surpresa, descobri que os apoiadores estadunidenses do golpe de 1964 no Brasil, foram também os arquitetos da desastrosa invasão daquela nação ao Vietnã. Com as forças lideradas pelos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistão, o paralelo com o presente deve ser desenhado. O desejo de possuir o tempo está intimamente conectado com a ambição de controlar o espaço. Quando olhei o mundo a partir do Sul, pude ver quão facilmente os sonhos da alta tecnologia podem se transformar em pesadelos de barbárie e crueldade. Ir para São Paulo foi uma pré condição para entender porquê – em Futuros Imaginários – Saigon tem um papel tão central na história da Aldeia Global.
Quando primeiramente visitei o Brasil em 2002, a importância de encarar o mundo do ponto de vista do Sul enquanto escrevia este livro não era imediatamente óbvia. Em uma conferência na UFRJ, nossos anfitriões entretiveram os convidados internacionais com uma triste história da versão local do estilo californiano de alta tecnologia. Fascinado pela bolha das empresas pontocom do fim da década de 1990, a administração de Fernando Henrique Cardoso fantasiou sobre o Brasil dar um grande passo adiante, do subdesenvolvimento para a sociedade da informação sem passar pelo fordismo. Com os habitantes das favelas próximas carentes das necessidades básicas e dos serviços de bem estar social que são garantidos na Europa, ficamos apavorados em saber como os futuros imaginários do Norte deram um brilho modernista na perpetuação da exploração no Sul. Quando os apoiadores do recém eleito governo Lula nos contaram que chegar ao fordismo seria a maior conquista para a população urbana brasileira pobre, não pudemos discordar. Focar a política econômica do país em computadores, Internet e telefones celulares parecia grotesco quando tantas pessoas necessitavam de água, saneamento básico, eletricidade, saúde e educação. Líamos nosso Marx – sabíamos que o Sul não poderia evitar seguir o lento e doloroso caminho do Norte em direção à modernização.
Então eu tive um pensamento preocupante. Ironicamente, nossas simpatias esquerdistas pelos habitantes das favelas poderia esconder uma duvidosa certeza da superioridade européia. Com o enorme abismo entre ricos e pobres, viajar ao Rio de Janeiro no começo do século 21 era como voltar no tempo à Londres do final do século 19. Era certamente verdade que muitos turistas iam ao Brasil para uma dose rápida de exotismo e aventura antes de voltar para suas seguras casas européias. Se nossas motivações para viajar ao exterior não fossem puras o suficiente, significaria que os habitantes de um país subdesenvolvido não nos poderiam contar nada sobre computação e Internet que a gente não soubesse? Aqui estava outra conclusão problemática. Fernando Henrique foi um respeitado economista marxista antes de sacrificar princípios pelo poder. Sua aproximação perversa ao neoliberalismo pontocom pôde ter sido fundada sob um cerne de racionalidade: o Sul teve que fervorosamente imitar o norte em todas suas imperfeições. Com sua ambição de saltar por sobre o fordismo para a pós-industrialização, talvez ele fosse o verdadeiro radical, ao invés do governo Lula - com seu cauteloso programa de reformas parciais? Quem quer ser Suécia quando se pode ser o Vale do Silício?
Seis anos depois, enquanto o sistema financeiro global colapsa em crise, parece absurdo que o Brasil queira se transformar na Califórnia. Pelo contrário, é agora altamente reconhecido que muitos dos elementos do novo paradigma da modernidade são mais facilmente descobertos nestes países supostamente subdesenvolvidos do que na avançada vizinhança ao Norte. Na época em que o Mídia Tática BrasilNT me convidou a voltar para a conferência em 2003, Gilberto Gil já estava defendia – como ministro de Estado – uma visão open source da Internet. Para ele, financiar telecentros comunitários e pontos de cultura complementavam os suprimentos básicos dos menos privilegiados. De maneira ainda mais bela, eram os fetichistas do direito autoral do Norte que deveriam imitar a atitude tranquila do Sul em relação à propriedade intelectual, não o contrário. Os que têm computadores e acesso à banda larga podem ser em um número bem menor no Brasil do que na Europa ou EUA, mas era ali que poderia-se achar o precursor da cultura participativa da Internet. O Carnaval, e não o mercado, era o modelo do Ministro da Cultura para a emergência da sociedade da informação. Fazendo jus às suas raízes na tropicália, Gil é um verdadeiro cosmopolita. Imitação não é subserviência – é inspiração e cooperação. Remixar, samplear e citar são ferramentas do trabalho coletivo na economia da dádiva da alta tecnologia.
Na conclusão deste livro, eu argumento que devemos inventar novos futuros. Exorcizar as ideologias da Guerra Fria de inteligência artificial e de aldeia global é minha contribuição para mapear um caminho através das múltiplas promessas econômicas, sociais e ambientais que agora confrontam a humanidade. Crucialmente,como adivinhou meu interlocutor da Pipa, vocês também ajudaram a criar este texto de alguma maneira. Futuros Imaginários teria sido um livro levemente diferente em várias maneiras se eu não visitasse o Brasil e aprendesse com as pessoas que conheci aí. Os habitantes do Norte e do Sul estão juntos nessa aventura da modernidade. Então, continuemos nossa colaboração no esforço comum de fazer um mundo mais igualitário, sustentável e próspero. O drum'n'bass está tocando e este livro está esperando para ser lido. Aproveite!
Richard Barbrook
Londres, Inglaterra
16 de novembro de 2008
NTMídia Tática Brasil foi uma ação cultural coletiva que teve por objetivo trazer a diálogo e espalhar o conceito de midia tática dentro do cenário brasileiro de arte eletrônica e ativismo. O nome origina-se do festival The Next Five Minutes, que em sua quarta edição, ativamente procurava iniciativas semelhantes na América Latina. http://mtb.midiatatica.info
Segunda revisão
“Nós queremos que você escreva uma introdução para a versão em português de Futuros Imaginários – algo especial para nossos leitores", dizia o e-mail dos tradutores no Brasil. O que deveria falar? Pensei imediatamente em Suba, DJ Marky e DJ Patife, a trilha sonora nas madrugadas de escrita que geraram este livro. Seus ritmos contribuíram para a construção de frases e dos fluxos dos argumentos. Talvez eu devesse começar a introdução explicando porque estes músicos estavam no mix. Definitivamente não foi por acaso. Graças ao meu trabalho na Universidades de Westminster, tive o prazer de lecionar para alguns inteligentes estudantes brasileiros durante a última década. Através deles e por outros contatos, fiz a longa viagem ao sul três vezes para falar em conferências e festivais no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Pipa. Dancei em uma escola de samba, em badaladas casas noturnas e sob as estrelas na praia. Discuti a política do Partido dos Trabalhadores, analisei o movimento de justiça global e debati longamente as teorias da esquerda noites adentro. Eu admirei a criatividade e dedicação dos artistas, hackers e ativistas brasileiros. Apesar da barreira da língua, eu agora tenho amigos neste fascinante e distante país. Entusiasmado com estas visitas, retribuí o favor ajudando a organizar em 2005 um evento em Londres onde Gilberto Gil apresentou as iniciativas inovadoras do Ministério da Cultura em novas mídias. Mas, você pode perguntar, o que estas reminiscências têm a ver com este livro? Por que falar sobre elas na introdução da tradução portuguesa de Futuros Imaginários? É porque eu me lembro de estar sentado do lado de fora do telecentro comunitário na Pipa em 2004 quando me perguntaram a questão de suma importância: “Estar no Brasil mudou a maneira como você pensa a Internet?” Meu desafio nessa introdução deve ser explicar por que a resposta é: “Sim!”
Futuros imaginários é um livro sobre o poder político e cultural das profecias tecnológicas. Durante a guerra fria, os impérios Estadunidense e Russo competiram não só para controlar o espaço mas também para deterem o tempo. A Internet e computadores há muito tempo são ferramentas mais do que úteis . Por mais de meio século, eles também incorporaram sonhos utópicos a serviço da ambição imperial. A nação que abre o caminho do futuro no presente pode reivindicar a liderança sobre toda a humanidade. Quando comecei a pesquisa para este livro em 2002, meu foco estava exclusivamente no Norte. Eu estava fascinado por como os futuros imaginários da guerra fria ainda dominavam o mundo contemporâneo bem após a queda do muro de Berlin. O império estadunidense pôde ter prevalecido sobre seu rival russo, mas seus promotores permaneceram presos dentro de um marco ideológico gerado por este conflito geopolítico. Evidentemente, este livro reflete o período no qual foi escrito: dos vestígios da bolha pontocom e do momento da invasão do Iraque pelos EUA. Por toda a Europa, lideres políticos, acadêmicos especialistas e analistas da mídia estavam convencidos que os Estados Unidos – a terra da vanguarda da computação e da Internet – seria hoje, nosso amanhã. Aonde o presidente dos EUA nos guiasse, nossos países deveríam seguir – mesmo que significasse mandar tropas para terras estrangeiras onde elas não fossem bem-vindas. Como uma das duas milhões de pessoas que marcharam contra esta tolice em Londres no dia 15 de fevereiro de 2003, eu escrevi este livro como um grito de protesto. Ao explicar penosamente a história dos futuros imaginários da inteligência artificial e da sociedade da informação, eu queria equipar seus leitores com o conhecimento para recusar estas profecias anacrônicas. Da próxima vez que alguém lhes falasse que a utopia pós-industrial estava logo ali ao lado, eles poderíam responder que esta previsão não era nada mais que um McLuhanismo reciclado. A guerra fria terminou – e os futuros imaginários made in USA, também.
Da mesma forma que meu entrevistador da Pipa pensava, não precisei visitar o Brasil ou conhecer qualquer pessoa do país para chegar à esta conclusão. Poucos dos autores que preenchem as prateleiras de meus estudos com pensamentos sobre computação e a Internet estão interessados no impacto das tecnologias de informação nos países em desenvolvimento. Assim como eles, eu poderia ter dito tudo que quisesse neste livro sem fazer nenhuma menção à maioria da humanidade. Computadores e a Internet são do Norte, então porque se preocupar com o Sul? Felizmente, meus companheiros e companheiras brasileiras me preveniram de sucumbir a esta comodista tentação. Suas influências adicionaram profundidade à analise de Futuros Imaginários. Acima de tudo, eu percebi o quão diferente do Norte o mundo parece, visto do Sul. Não são só as constelações no céu que estão reviradas, mas também a memória geopolítica. Quando visitei Brasília em 2004, eu vi com meus próprios olhos os edifícios modernistas de uma sociedade melhor que era negada ao próprio país. Como o livro enfatiza, os líderes intelectuais do Império Estadunidense eram os principais apoiadores do golpe militar de 1964 que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart. As maravilhas do estilo estadunidense de futuro de alta tecnologia justificavam os horrores da ditadura imposta ao Brasil na época. Para nós que vivemos na Europa Ocidental é sempre um choque encontrar a desigualdade e violência que resultaram deste caminho autoritário do desenvolvimento. Pela nossa experiência da hegemonia estadunidense durante a Guerra Fria ter sido relativamente benigna, só entendemos realmente os custos humanos das regras imperiais quando vamos para o Sul. Os capítulos finais de Futuros Imaginários reflete o que eu aprendi das minhas viagens ao Brasil. Enquanto escrevia o livro, sabia que críticas mais ferozes a estas profecias utópicas do Norte explicavam como seus defensores tentaram imaginá-las no sul. Com muita surpresa, descobri que os apoiadores estadunidenses do golpe de 1964 no Brasil, foram também os arquitetos da desastrosa invasão daquela nação ao Vietnã. Com as forças lideradas pelos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistão, o paralelo com o presente deve ser desenhado. O desejo de possuir o tempo está intimamente conectado com a ambição de controlar o espaço. Quando olhei o mundo a partir do Sul, pude ver quão facilmente os sonhos da alta tecnologia podem se transformar em pesadelos de barbárie e crueldade. Ir para São Paulo foi uma pré condição para entender porquê – em Futuros Imaginários – Saigon tem um papel tão central na história da Aldeia Global.
Quando visitei o Brasil pela primeira vez em 2002, a importância de encarar o mundo do ponto de vista do Sul enquanto escrevia este livro não era imediatamente óbvia. Em uma conferência na UFRJ, nossos anfitriões entreteram os convidados internacionais com uma triste história da versão local do estilo californiano de alta tecnologia. Fascinado pela bolha das empresas pontocom do fim da década de 1990, a administração de Fernando Henrique Cardoso fantasiou sobre o Brasil dar um grande passo adiante, do subdesenvolvimento para a sociedade da informação sem passar pelo fordismo. Com os habitantes das favelas próximas carentes das necessidades básicas e dos serviços de bem estar social que são garantidos na Europa, ficamos apavorados em saber como os futuros imaginários do Norte deram um brilho modernista na perpetuação da exploração no Sul. Quando os apoiadores do recém eleito governo Lula nos contaram que chegar ao fordismo seria a maior conquista para a população urbana brasileira pobre, não pudemos discordar. Focar a política econômica do país em computadores, Internet e telefones celulares parecia grotesco quando tantas pessoas necessitavam de água, saneamento básico, eletricidade, saúde e educação. Líamos nosso Marx – sabíamos que o Sul não poderia evitar seguir o lento e doloroso caminho do Norte em direção à modernização.
Então eu tive um pensamento preocupante. Ironicamente, nossas simpatias esquerdistas pelos habitantes das favelas poderiam esconder uma duvidosa certeza da superioridade européia. Com o enorme abismo entre ricos e pobres, viajar ao Rio de Janeiro no começo do século 21 era como voltar no tempo à Londres do final do século 19. Era certamente verdade que muitos turistas iam ao Brasil para uma dose rápida de exotismo e aventura antes de voltar para suas seguras casas européias. Se nossas motivações para viajar ao exterior não fossem puras o suficiente, significaria que os habitantes de um país subdesenvolvido não nos poderiam contar nada sobre computação e Internet que a gente não soubesse? Aqui estava outra conclusão problemática. Fernando Henrique foi um respeitado economista marxista antes de sacrificar princípios pelo poder. Sua aproximação perversa ao neoliberalismo pontocom pôde ter sido fundada sob um cerne de racionalidade: o Sul teve que fervorosamente imitar o norte em todas suas imperfeições. Com sua ambição de saltar por sobre o fordismo para a pós-industrialização, talvez ele fosse o verdadeiro radical, ao invés do governo Lula - com seu cauteloso programa de reformas parciais? Quem quer ser Suécia quando se pode ser o Vale do Silício?
Seis anos depois, enquanto o sistema financeiro global colapsa em crise, parece absurdo que o Brasil queira se transformar na Califórnia. Pelo contrário, é agora altamente reconhecido que muitos dos elementos do novo paradigma da modernidade são mais facilmente descobertos nestes países supostamente subdesenvolvidos do que na avançada vizinhança ao Norte. Na época em que o Mídia Tática BrasilNT me convidou a voltar para a conferência em 2003, Gilberto Gil já estava defendia – como ministro de Estado – uma visão da Internet como código aberto. Para ele, financiar telecentros comunitários e pontos de cultura complementava os suprimentos básicos dos menos privilegiados. De maneira ainda mais bela, eram os fetichistas do direito autoral do Norte que deveriam imitar a atitude tranquila do Sul em relação à propriedade intelectual, não o contrário. Os que têm computadores e acesso à banda larga podem ser em um número bem menor no Brasil do que na Europa ou EUA, mas era ali que poderia-se achar o precursor da cultura participativa da Internet. O Carnaval, e não o mercado, era o modelo do Ministro da Cultura para a emergência da sociedade da informação. Fazendo jus às suas raízes na tropicália, Gil é um verdadeiro cosmopolita. Imitação não é subserviência – é inspiração e cooperação. Remixar, samplear e citar são ferramentas do trabalho coletivo na economia da dádiva da alta tecnologia.
Na conclusão deste livro, eu argumento que devemos inventar novos futuros. Exorcizar as ideologias da Guerra Fria de inteligência artificial e de aldeia global é minha contribuição para mapear um caminho através das múltiplas promessas econômicas, sociais e ambientais que agora confrontam a humanidade. Crucialmente, como adivinhou meu interlocutor da Pipa, vocês também ajudaram a criar este texto de alguma maneira. Futuros Imaginários teria sido um livro levemente diferente em várias maneiras se eu não visitasse o Brasil e aprendesse com as pessoas que conheci aí. Os habitantes do Norte e do Sul estão juntos nessa aventura da modernidade. Então, continuemos nossa colaboração no esforço comum de fazer um mundo mais igualitário, sustentável e próspero. O drum'n'bass está tocando e este livro está esperando para ser lido. Aproveite!
Richard Barbrook
Londres, Inglaterra
16 de novembro de 2008
NTMídia Tática Brasil foi uma ação cultural coletiva que teve por objetivo trazer a diálogo e espalhar o conceito de midia tática dentro do cenário brasileiro de arte eletrônica e ativismo. O nome origina-se do festival The Next Five Minutes, que em sua quarta edição, ativamente procurava iniciativas semelhantes na América Latina. http://mtb.midiatatica.info
terceira revisão
“Nós queremos que você escreva uma introdução para a versão em português de Futuros Imaginários – algo especial para nossos leitores", dizia o <correio eletrônico> dos tradutores no Brasil. O que deveria falar? Pensei imediatamente em Suba, DJ Marky e DJ Patife, a trilha sonora nas madrugadas de escrita que geraram este livro. Seus ritmos contribuíram para <sua> construção de frases, <e também para> os fluxos dos argumentos. Talvez eu devesse começar a introdução explicando porque estes músicos estavam <na minha fila de reprodução>. Definitivamente não foi por acaso. Graças ao meu trabalho na Universidade de Westminster, tive o prazer de lecionar para alguns inteligentes estudantes brasileiros durante a última década. Através deles e por outros contatos, fiz a longa viagem ao sul três vezes para falar em conferências e festivais no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Pipa. Dancei em uma escola de samba, em badaladas casas noturnas e sob as estrelas na praia. Discuti a política do Partido dos Trabalhadores, analisei o movimento de justiça global e debati longamente as teorias da esquerda noites adentro. Eu admirei a criatividade e dedicação dos artistas, hackers e ativistas brasileiros. Apesar da barreira da língua, eu agora tenho amigos neste fascinante e distante país. Entusiasmado com estas visitas, retribuí o favor ajudando a organizar em 2005 um evento em Londres onde Gilberto Gil apresentou as iniciativas inovadoras do Ministério da Cultura em novas mídias. Mas, você pode perguntar, o que estas reminiscências têm a ver com este livro? Por que falar sobre elas na introdução da tradução portuguesa de Futuros Imaginários? É porque eu me lembro de estar sentado do lado de fora do telecentro comunitário na Pipa em 2004 quando me perguntaram a questão de suma importância: “Estar no Brasil mudou a maneira como você pensa a Internet?” Meu desafio nessa introdução <é então> explicar por que a resposta é: “Sim!”
Futuros imaginários é um livro sobre o poder político e cultural das profecias tecnológicas. Durante a guerra fria, os impérios Estadunidense e Russo competiram não só para controlar o espaço <mas também o tempo>. A <i>nternet e computadores têm sido ferramentas mais do que úteis ao longo dos anos. Por mais de meio século, eles também incorporaram sonhos utópicos a serviço da ambição imperial. A nação que abre o caminho do futuro no presente pode reivindicar a liderança sobre toda a humanidade. Quando comecei a pesquisa para este livro em 2002, meu foco estava exclusivamente no Norte. Eu estava fascinado por como os futuros imaginários da guerra fria ainda dominavam o mundo contemporâneo <mesmo muito depois da> queda do muro de Berli<m>. O império estadunidense pôde ter prevalecido sobre seu rival russo, mas seus promotores permaneceram presos dentro de um marco ideológico <desenhado para> este conflito geopolítico. Evidentemente, este livro reflete o período no qual foi escrito: dos vestígios da bolha pontocom e do momento da invasão do Iraque pelos EUA. Por toda a Europa, lideres políticos, acadêmicos especialistas e analistas da mídia estavam convencidos que os Estados Unidos – a terra da vanguarda da computação e da <i>nternet – seria hoje, nosso amanhã. Aonde o presidente dos EUA nos guiasse, nossos países deveríam seguir – mesmo que <isso> significasse mandar tropas para terras estrangeiras onde elas não fossem bem-vindas. Como uma das duas milhões de pessoas que marcharam contra esta tolice em Londres no dia 15 de fevereiro de 2003, eu escrevi este livro como um grito de protesto. Ao explicar penosamente a história dos futuros imaginários da inteligência artificial e da sociedade da informação, eu queria equipar seus leitores com o conhecimento para recusar estas profecias anacrônicas. Da próxima vez que alguém lhes falasse que a utopia pós-industrial estava logo ali ao lado, eles poderíam responder que esta previsão não era nada mais que um <mcluhanismo> reciclado. A guerra fria terminou – e os futuros imaginários <feito-nos-EUA>, também.
<Assim como pensava meu entrevistador em Pipa>, <eu> não precis<aria> visitar o Brasil ou conhecer qualquer pessoa do país para chegar à esta conclusão. Poucos dos autores que preenchem as prateleiras de meus estudos com pensamentos sobre computação e a <i>Internet estão interessados no impacto das tecnologias de informação nos países em desenvolvimento. Assim como eles, eu poderia ter dito tudo que quisesse neste livro sem fazer nenhuma menção à maioria da humanidade. Computadores e a Internet são do Norte, então porque se preocupar com o Sul? Felizmente, meus companheiros e companheiras brasileiras me preveniram de sucumbir <à> esta comodista tentação. Suas influências adicionaram profundidade à analise de Futuros Imaginários. Acima de tudo, eu percebi o quão diferente do Norte o mundo parece, visto do Sul. Não são só as constelações no céu que estão reviradas, mas também a memória geopolítica. Quando visitei Brasília em 2004, eu vi com meus próprios olhos os edifícios modernistas de uma sociedade melhor que era negada ao próprio país. Como o livro enfatiza, os líderes intelectuais do <i>mpério <e>stadunidense eram <a torcida animada> do golpe militar de 1964 que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart. As maravilhas do estilo estadunidense de futuro de alta tecnologia justificavam os horrores da ditadura imposta ao Brasil na época. Para nós que vivemos na Europa Ocidental é sempre um choque encontrar a desigualdade e violência que resultaram deste caminho autoritário <ao> desenvolvimento. P<or> nossa experiência da hegemonia estadunidense durante a Guerra Fria ter sido relativamente benigna, só entendemos realmente os custos humanos das regras imperiais quando vamos para o Sul. Os capítulos finais de Futuros Imaginários reflete o que eu aprendi das minhas viagens ao Brasil. Enquanto escrevia o livro, sabia que críticas mais ferozes <à> estas profecias utópicas do Norte explicavam como seus defensores tentaram imaginá-las no <S>ul. Com muita surpresa, descobri que os apoiadores estadunidenses do golpe de 1964 no Brasil, foram também os arquitetos da desastrosa invasão daquela nação ao Vietnã. Com as forças lideradas pelos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistão, o paralelo com o presente deve ser desenhado. O desejo de possuir o tempo está intimamente conectado com a ambição de controlar o espaço. Quando olhei o mundo a partir do Sul, pude ver quão facilmente os sonhos da alta tecnologia podem se transformar em pesadelos de barbárie e crueldade. Ir para São Paulo foi uma pré condição para entender porquê – em Futuros Imaginários – Saigon tem um papel tão central na história da <a>ldeia <g>lobal.
Quando visitei o Brasil pela primeira vez em 2002, a importância de encarar o mundo do ponto de vista do Sul enquanto escrevia este livro não era imediatamente óbvia. Em uma conferência na UFRJ, nossos anfitriões entreteram os convidados internacionais com uma triste história da versão local do estilo californiano de alta tecnologia. Fascinado pela bolha das empresas pontocom do fim da década de 1990, a administração de Fernando Henrique Cardoso fantasiou sobre o Brasil dar um grande passo adiante, do subdesenvolvimento para a sociedade da informação sem passar pelo fordismo. <Faltando aos carentes habitantes das favelas próximas>, além de necessidades básicas, os serviços de bem estar social que são garantidos na Europa, ficamos apavorados em saber como os futuros imaginários do Norte deram um brilho modernista na perpetuação da exploração no Sul. Quando os apoiadores do recém eleito governo Lula nos contaram que chegar ao fordismo seria a maior conquista para a população urbana brasileira pobre, não pudemos discordar. Focar a política econômica do país em computadores, Internet e telefones celulares parecia grotesco quando tantas pessoas necessitavam de água, saneamento básico, eletricidade, saúde e educação. Líamos nosso Marx – sabíamos que o Sul não poderia evitar seguir o lento e doloroso caminho do Norte em direção à modernização.
Então eu tive um pensamento preocupante. Ironicamente, nossas simpatias esquerdistas pelos habitantes das favelas poderiam esconder uma duvidosa certeza da superioridade européia. Com o enorme abismo entre ricos e pobres, viajar ao Rio de Janeiro no começo do século 21 era como voltar no tempo à Londres do final do século 19. Era certamente verdade que muitos turistas iam ao Brasil para uma dose rápida de exotismo e aventura antes de voltar para suas seguras casas européias. Se nossas motivações para viajar ao exterior não fossem puras o suficiente, significaria que os habitantes de um país subdesenvolvido não nos poderiam contar nada sobre computação e Internet que <já não soubessemos>? Aqui estava outra conclusão problemática. Fernando Henrique foi um respeitado economista marxista antes de sacrificar princípios p<or> poder. Sua aproximação perversa ao neoliberalismo pontocom p<o>de ter sido fundada sob um cerne de racionalidade: o Sul <teria> que fervorosamente imitar o norte em todas <as> suas imperfeições. Com sua ambição de saltar por sobre o fordismo para a pós-industrialização, talvez ele fosse o verdadeiro radical, ao invés do governo Lula - com seu cauteloso programa de reformas parciais? Quem quer ser Suécia quando se pode ser o Vale do Silício?
Seis anos depois, enquanto o sistema financeiro global colapsa em crise, parece absurdo que o Brasil queira se transformar na Califórnia. Pelo contrário, é agora <larga>mente reconhecido que muitos dos elementos do novo paradigma da modernidade são mais facilmente descobertos nestes países supostamente subdesenvolvidos do que na avançada vizinhança ao Norte. Na época em que o Mídia Tática BrasilNT me convidou a voltar para a conferência em 2003, Gilberto Gil já defendia – como ministro de Estado – uma visão da <i>nternet como código aberto. Para ele, financiar telecentros comunitários e pontos de cultura complementava os suprimentos básicos dos menos privilegiados. De maneira ainda mais bela, eram os fetichistas do direito autoral do Norte que deveriam imitar a atitude tranquila do Sul em relação à propriedade intelectual, não o contrário. Os que têm computadores e acesso à banda larga podem ser um número bem menor no Brasil do que na Europa ou EUA, mas era ali que poderia-se achar o precursor da cultura participativa da Internet. O Carnaval, e não o mercado, era o modelo do Ministro da Cultura para a emergência da sociedade da informação. Fazendo jus às suas raízes na tropicália, Gil é um verdadeiro cosmopolita. Imitação não é subserviência – é inspiração e cooperação. Remixar, samplear e citar são ferramentas do trabalho coletivo na economia da dádiva da alta tecnologia.
Na conclusão deste livro, eu argumento que devemos inventar novos futuros. Exorcizar as ideologias da Guerra Fria de inteligência artificial e de aldeia global é minha contribuição <ao> mapeamento de um caminho através das múltiplas promessas econômicas, sociais e ambientais que agora confrontam a humanidade. Crucialmente, como adivinhou meu interlocutor da Pipa, vocês também ajudaram a criar este texto de alguma maneira. Futuros Imaginários teria sido um livro levemente diferente em várias maneiras se eu não visitasse o Brasil e aprendesse com as pessoas que conheci <neste lugar>. Os habitantes do Norte e do Sul estão juntos nessa aventura da modernidade. Então, continuemos nossa colaboração no esforço comum de fazer um mundo mais igualitário, sustentável e próspero. O drum'n'bass está tocando e este livro está esperando para ser lido. Aproveite!
Richard Barbrook
Londres, Inglaterra
16 de novembro de 2008
NTMídia Tática Brasil foi uma ação cultural coletiva que teve por objetivo trazer a diálogo e espalhar o conceito de midia tática dentro do cenário brasileiro de arte eletrônica e ativismo. O nome origina-se do festival The Next Five Minutes, que em sua quarta edição, ativamente procurava iniciativas semelhantes na América Latina. http://mtb.midiatatica.info
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